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A terceira onda e a crise econômica e social

22.06.2021 às 15:20

 

Por Arthur Virgílio Neto*

A descrença na pesquisa e na ciência, aliás, se tornou ainda mais evidente nesse período, com corte nos investimentos direcionados à área. Por outro lado, vimos gastos de custeio sendo aumentados no Congresso Nacional. Uma vergonha, desrespeito ao povo brasileiro, desrespeito à vida. E o resultado dessa marcha contra à sensatez na saúde pública é o triste número de milhares de brasileiros e brasileiras que perderam a vida por causa do novo coronavírus e, no Amazonas, muitos foram cruelmente asfixiados pela falta do oxigênio.
Cheguei a propor para o ministro Guedes, que estimo e respeito, que usasse apenas o resultado de parte das aplicações financeiras dos cerca de 360 bilhões de dólares já acumulados, atingindo como base para o socorro ao povo mais necessitado, praticamente todo o universo dos que hoje experimentam dias duros, desemprego exorbitante e um quadro de desorganização social, do jeito que vemos agora. Isso seria muito bom para desempregados, para os que desistiram de procurar trabalho, para camelôs, autônomos, artesãos, cantores, artistas da noite, pequenas e microempresas em geral.
Vantagens: Não se criaria nenhum imposto novo, ou velho, que somente serviria para desmoralizar a reforma tributária que está sendo decifrada por técnicos do governo e por parlamentares lúcidos. A proposta não atrai taxas extras de inflação. E as reservas, bem poderosas, permaneceriam intocadas, apenas uma parte das aplicações financeiras vindas das nossas reservas cambiais seriam utilizadas. Os recursos do Tesouro não seriam postos em posição de aumentarem o déficit primário – receita menos despesa, sem incluir a conta juros, porque se mede o outro déficit, o nominal, incluindo nos cálculos essa mesma conta juros. Mas, o déficit primário pode muito bem ter ingressado em números de trilhão.
O quadro é grave, é ameaçador, para o equilíbrio político e econômico. Por isso, fiz essa sugestão para socorrer o futuro da nação. Nada de mais endividamento, não teria mais inflação. Usar-se-iam apenas os resultados das aplicações das reservas cambiais. O atendimento ao povo necessitado seria mais constante, volumoso, forte.
Cientistas respeitáveis temem mais ondas. O isolamento social poderia fracassar e ser, de novo, prejudicado pela falta de recursos. Mas, com a família passando fome, os responsáveis pela sua prole sairão, inevitavelmente, às ruas para alimentar os seus queridos. Entre o empirismo e suas fórmulas “mágicas” e a ciência, fico abertamente com esta última, fico com os cientistas.

Sabem as leitoras e os leitores que, por exemplo, a decretação de um lockdown exige dinheiro nas mãos do povo, regras duras de isolamento social e curta duração. A Covid-19, reforçada pelas novas cepas, cada vez mais resistentes e letais, tem de ser enfrentada pelo bom comportamento aqui relatado e por campanhas vitoriosas de vacinação em massa. O Brasil vacina com a lentidão de um jabuti, quando a postura correta seria correr como os campeões de Fórmula 1.

*Diplomata, foi deputado federal, senador, líder por duas vezes do governo Fernando Henrique Cardoso, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, líder das oposições no Senado ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e três vezes prefeito da capital da Amazônia – Manaus 

*Publicado na edição 48 da revista Painel Alagoas
Postado por Painel Opinativo

Mortalidade de gestantes por covid é mais que o dobro da média no país

22.06.2021 às 14:40

 As gestantes e puérperas (mulheres que tiveram filhos há até 45 dias) registra uma taxa de letalidade de 7,2%, mais que o dobro da atual taxa de letalidade do país, que é de 2,8%. O dado faz parte do último Boletim do Observatório Covid-19, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado no início deste mês de junho.

Segundo o boletim, um estudo sobre a pandemia nas Américas, publicado em maio pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), verificou que, entre janeiro e abril deste ano, houve um aumento relevante de casos em gestantes e puérperas, e de óbitos maternos por covid-19 em 12 países.

Os especialistas alertam ainda que as gestantes podem evoluir para formas graves da covid-19, com descompensação respiratória, em especial, aquelas que estão em torno de 32 ou 33 semanas de gestação. Em muitos casos, segundo os cientistas, há necessidade de antecipar o parto.
Esse quadro aumenta a preocupação em relação à disponibilidade de leitos de UTI adulto para essas mulheres e de leitos de UTI neonatal para os recém-nascidos, que podem ser prematuros. Os pesquisadores alertam que ambos precisam de cuidados especializados e imediatos. A partir de meados de 2020, começaram a ser publicados artigos sobre a morte de gestantes e puérperas por covid-19 no Brasil, alertando para a necessidade de preparação e organização de toda a rede de atenção em saúde.

De acordo como Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19, os óbitos maternos em 2021 superaram o número notificado em 2020. No ano de 2020, foram 544 óbitos em gestantes e puérperas por covid-19 no país, com média semanal de 12,1 óbitos, considerando que a pandemia se estendeu por 45 semanas epidemiológicas nesse ano. Até 26 de maio de 2021, transcorridas 20 semanas epidemiológicas, foram registrados 911 óbitos, com média semanal de 47,9 óbitos.


*Publicado como editorial na edição 48 da revista Painel Alagoas

Postado por Painel Opinativo

Empreendedorismo social

24.05.2021 às 10:52

 

Mateus Sant'Ana - Advogado

A arte de empreender fascina muitas pessoas pelo mundo. Aliado ao fenômeno da globalização, estreitou as fronteiras geográficas permitindo a rápida troca de informação através da rede mundial de computadores, a Internet. Diante disso, novos mercados e oportunidades surgem como, por exemplo, a inovação da tecnologia e a conectividade que se tornaram extremamente relevante não só para o empreendedor, como para a sociedade. Um grande exemplo é repensar os problemas das cidades.  


O conceito de Cidades Inteligen­tes (smartcities) objetiva au­men­tar a participação cidadão através da tecnologia fazendo com que o cidadão esteja cada vez mais próximo das ações governamentais.

 
Neste contexto, surge o em­preendedor social que é o empreendedor que opta em montar um negócio em que a responsabilidade social é o principal objetivo. São negócios lucrativos que resolvem problemas sociais por meio da venda de produtos ou serviços.  


Um híbrido de intervenção governamental e puro empreendedorismo de negócios, o empreendimento social é capaz de tratar problemas cujo âmbito é estreito demais para instigar o ativismo legislativo ou para atrair capital privado.  
O empreendedorismo social já é uma realidade no Brasil e no mundo; e os diferentes modelos de negócios desenvolvidos por em­preendedores estão quebrando muitos paradigmas e contribuindo para transformar realidades. Um dos maiores desafios para o em­preendedorismo social no Brasil, e em qualquer outro país em desenvolvimento, é a captação de recursos. Por isso, a primeira preocupação é com a alocação que se faz primeiramente pela disseminação das ideias e objetivos das ações sociais a serem empreendidas.

 
Portanto, o Projeto Social deve ser transparente, ter finalidade consistente e corrente com a realidade social, estar voltado a problemas reais e a busca de soluções, ou seja, ser relevante e, além disso, ter um custo também transparente. Sendo assim, será mais fácil conseguir investidores que apoiem e acreditem no projeto e no resultado que ele pode gerar para a sociedade. Independentemente dos obstáculos, empreendedores sociais têm um grande potencial. É um mercado ainda novo e repleto de oportunidades para aqueles que decidirem explorá-lo. Assim, os empreendedores sociais têm a oportunidade de resolver problemas, gerar emprego, ganhar dinheiro e até mesmo mudar o mundo!

*Publicado originalmente na edição 47 da Revista Painel Alagoas
Postado por Painel Opinativo

Vendas do comércio encerram 1º trimestre no vermelho

24.05.2021 às 10:00

 

As vendas do comércio varejista tiveram queda de 0,6% em março, na comparação com fevereiro, apontam os dados divulgados nesta sexta-feira (7) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Esta­tís­tica (IBGE). No acumulado em 12 meses, porém, o comércio registra alta de 0,7%. Na comparação com março do ano passado, houve alta foi de 2,4%.

 
Com o resultado, o setor en­cerrou o primeiro trimestre do ano no vermelho. Na comparação com o 4º trimestre de 2020, a queda foi de 4,3% - foi o segundo trimestre seguido em queda.

 
Já na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, o recuo foi de 0,6%.

 
O comércio foi o segundo grande setor da economia a fechar o 1º trimestre do ano com perdas. A indústria encerrou o período com queda de 0,4%. Em termos de patamar de vendas, o resultado de março deixou o setor varejista 6,5% abaixo do recorde, que foi alcançado em outubro de 2020.

 
O resultado de março também levou o setor de comércio a ficar abaixo do patamar pré-pandemia, depois de ter recuperado as perdas em fevereiro. O volume de vendas em março ficou 0,3% abaixo do observado em fevereiro de 2020.

 
Das oito atividades, somente duas registraram patamar superior ao pré-pandemia: artigos farmacêuticos (12,7%) e hiper e supermercados (3,9%). As quedas mais intensas ficaram com os segmentos de tecidos e vestuários (-50,1%) e livros, jornais e revistas (-50,2%).

 
De acordo com o IBGE, das oito atividades do comércio investigadas na pesquisa mensal, sete tiveram queda no volume de vendas na passagem de fevereiro para março. A única com crescimento foi a hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que teve alta de 3,3%.
 O principal impacto negativo para o resultado geral partiu do setor de móveis e eletrodomésticos, que teve queda de 22% em março. Segundo o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, essa atividade foi muito influenciada pelo comportamento dos consumidores durante a pandemia.

 
Os economistas do mercado financeiro passaram a prever uma maior expansão da economia este ano. Conforme o último relatório Focus, divulgado pelo Banco Cen­tral, a previsão é de que o Produto Interno Bruto (PIB) do país tenha alta de 3,14% - antes, o crescimento previsto era de 3,09%.
O mercado financeiro também aumentou a projeção de alta da inflação para este ano, de 5,01% para 5,04%. A previsão de inflação do mercado continua acima da meta central deste ano, de 3,75%, e se aproxima do teto do sistema de metas: 5,25%. Isso porque, pelo sistema atual, a inflação será considerada cumprida se ficar entre 2,25% e 5,25% em 2021.

*Publicado originalmente como editorial na edição 47 da revista Painel Alagoas

Postado por Painel Opinativo

JHC ganha destaque nacional em entidade de prefeitos

21.05.2021 às 16:25
Assessoria

 

Pedro Oliveira - Jornalista

O prefeito JHC começa a ter seu mandato crescente a nível nacional quando passa a integrar colegiados importantes que reúnem representantes da administração de todo o país. Acaba de ser aclamado como vice-presidente temático regional de turismo, da Frente Nacional de prefeitos.

A entidade reúne prefeitos das capitais e grandes cidades e tem um papel institucional relevante, liderando o debate de temas de interesse das administrações e voltados para o desenvolvimento socioeconômico dos seus filiados e dos municípios como um todo.

A Diretoria Executiva da Frente Nacional de Prefeitos trabalha para zelar pelo princípio constitucional da autonomia municipal, visando garantir a participação plena e imprescindível dos municípios no pacto federativo, podendo adotar no âmbito dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, medidas coletivas em sua defesa.

A Diretoria Executiva também atua para promover a participação ativa dos entes locais nas questões urbanas e na interlocução ampla e democrática com os três poderes, nas esferas estadual e federal, e com a sociedade civil organizada.
Ao ser empossado o prefeito de Maceió ressaltou: “É uma honra poder contribuir com esta Frente tão importante no debate das causas municipalistas, principalmente em um momento como esse, em que o País e o mundo enfrentam os efeitos da pandemia e vamos precisar estar ainda mais unidos para buscar os melhores caminhos e soluções para enfrentar o problema”.

Não tenho dúvidas de que o prefeito JHC vai chegar à presidência da Frente Nacional de prefeitos no futuro, repetindo a trajetória de seu vice, Ronaldo Lessa que foi considerado um dos mais atuantes presidentes da entidade, modernizando e liderando importantes temas do municipalismo brasileiro. Em sua gestão Lessa realizou encontros regionais em várias capitais, promovendo maior integração entre os prefeitos.

Sou testemunha ocular dos fatos, uma vez que ocupava a função de secretário geral da entidade, atendendo a um honroso convite do prefeito à época. Rodamos o país com as reuniões da Frente Nacional de Prefeitos.

Postado por Painel Opinativo

Pesquisa aponta desafios do home office após um ano de pandemia

26.04.2021 às 12:30

 

Em um ano de pandemia, muitas empresas consolidaram o home office como modelo de tra­balho no país. Pesquisa da Workana, plataforma que conecta freelancers a empresas da Amé­rica Latina, mostra que, mesmo quando a pandemia acabar, a intenção de 84,2% dos líderes entrevistados é continuar com o trabalho remoto.


Para isso, eles acreditam que o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal é um aspecto a ser priorizado, e isso inclui a flexibilidade de horários.
Essa modalidade de trabalho, aponta o levantamento, levará a um trabalho mais orientado a objetivos e metas do que ao cumprimento de jornadas de trabalho fixas. Os líderes de empresas também destacam que outro fator no qual deverão trabalhar é a melhoria da tecnologia e conectividade dos funcionários que trabalham remoto.

 
O levantamento, feito com 2.810 profissionais CLT, freelancers e líderes de empresas na América Latina, sendo 42% so­mente do Brasil, aponta os principais desafios considerados na rotina do trabalho à distância. Além do equilíbrio entre vida pessoal e profissional e do trabalho com base em resultados e objetivos, a comunicação mais transparente e saúde mental são alguns dos desafios apontados na pesquisa.

 
De acordo com a pesquisa da Workana, 35,2% dos CLTs acreditam que, no futuro, o trabalho será mais flexível, e o sucesso será medido pelo resultado oferecido, e não pelas horas trabalhadas. Número bem parecido com o dos líderes de empresas, 38,6%, que também apostam que essa flexibilidade pode gerar um bom retorno.

 
De olho nessa tendência, é fundamental que os gestores orientem seus colaboradores pensando nos objetivos que eles têm a alcançar, e não apenas nas horas que precisam cumprir.

 
Até porque, mesmo atuando à distância, 42,6% dos colaboradores CLT consideraram sua produtividade excelente, 39,3% muito boa, 14,8% boa - contra apenas 3,3% que acharam regular ou ruim -, e 63,2% dos gestores disseram ter notado que os funcionários tiveram a mesma performance de quando estavam no escritório, ou aumentaram a produtividade com essa certa liberdade que o home office traz.

 
Os funcionários das empresas acreditam que é possível cumprir seus objetivos profissionais trabalhando de maneira remota. E as empresas estão começando a pensar nessa possibilidade como uma alternativa viável. Por outro lado, o benefício do home office é um valor que cada vez ganha mais for­ça e é levado em conta pelos profissionais no momento de escolher a empresa em que irão trabalhar.

*Publicado como editorial na edição 46 da revista Painel Alagoas


Postado por Painel Opinativo

Átila

26.04.2021 às 12:10

 Para recitar poemas, quem melhor? Para atuar em peças, só aplausos. Como lutador social, um guerreiro. Na fotografia, lances ousados, olho mágico em imagens de movimento. Como militante partidário, um idealista da causa dos menos favorecidos, da igualdade de direitos, da universalização dos sonhos.  De quem falamos? De Átila Vieira, 43, mais uma vítima da Covid-19, desse vírus medonho que mata pessoas, que leva amores, que empobrece a esperança, que nos tira a paz. Colaborador da PAINEL ALAGOAS, profissional que honrou o trabalho e a vida. Ao nosso eterno Átila, todos os nossos sentimentos, traduzidos em versos de um dos poemas tantas vezes declamado por ele:

“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu”

(Trecho de "A Flor e a Náusea", de Carlos Drummond de Andrade)


* Publicado originalmente na edição  46 da revista Painel Alagoas

Postado por Painel Opinativo

1 ano de pandemia: o primeiro ano do resto de nossas vidas. No jornalismo também?

23.03.2021 às 16:00

 

O primeiro ano do resto das nos­sas vidas. Acho que dá pra dizer que, ao completarmos um ano do primeiro caso de coronavírus no Brasil, temos a sensação do primeiro ano de um nova vida, muito diferente do que qual­quer um de nós poderia ter pensado em viver quando estava lá ven­do os fogos de artifício na virada de ano para 2020 ou mesmo no carnaval do ano passado que, aliás, foi nes­sa mesma época há um ano. Temos experimentado de tudo. Saudade, restrição, solidão, lidado com a morte e as narrativas da perda. Passamos a usar termos novos, a falar de comorbidades, variante, IFA e respirador, como quem falava de qualquer outro tema cotidiano. Vimos a disputa entre notícias falsas, remédios que não cu­ram, receitas que não combatem co­ronavírus e vimos também vacinas serem produzidas em tempo recorde. O ano de 2020 trouxe a pandemia e a vacina. E como contamos tudo isso?

 
Usamos o que já tínhamos, con­tando histórias e distribuindo informações nas redes sociais. Ouvimos podcast. Descobrimos ferramentas que não conhecíamos como as reuni­ões virtuais por Zoom, Meet, Teams. E o jornalismo? O que foi feito dele nesse ano do resto das nossas vidas? A desacreditada narrativa que vinha sendo bombardeada junto com as grandes empresas que no Brasil concentram a produção. O começo da pan­demia trouxe um novo vigor à nar­rativa jornalística. Programas foram criados nas emissoras de TV dando espaço para que o jornalismo pesquisasse e explicasse, simultaneamente, o que era coronavírus, que se escreve-tudo-junto, que causa a Covid, que é no feminino. Informou às pessoas como usar máscara, que tipo, de que jeito, como usar álcool gel, com que frequência, como abraçar, porque não abraçar, a diferença entre isolamento e distanciamento social e por aí foi. Gráficos, números, entrevistas com autoridades, máscaras em todos os repórteres e, enfim, a retomada de certo protagonismo.

As análises, que aproximaram os jornalistas dos especialistas, dos ci­entistas e dos profissionais de saúde, se juntaram às instruções que são repetidas até hoje sobre como proceder na pandemia. Mais que isso, o jornalismo voltou a lembrar que precisava contar histórias. E justamente num tema que, por um lado, não per­mitia acesso fácil a certas narrativas como aquelas que aconteciam nos hospitais, cemitérios e nas casas das pessoas. E por outro, passou a ser um assunto que, aos poucos, podia ser contado por todo mundo.

 
Durante parte de 2020, para sair das falas oficiais das autoridades e mostrar para as pessoas que havia risco real de adoecimento e morte, os jornalistas precisaram chegar às UTIs, como fez o repórter Yan Boechat nas matérias do hospital Santa Maggiore, em São Paulo, ou nos hospitais de Manaus, na primeira onda da Covid, em abril. Ou quando acompanhou diariamente a rotina de cemitérios em São Paulo e constatou o au­mento de sepultamentos, a abertura de covas coletivas e viu famílias contarem o que estavam passando com a perda de parentes para a Covid-19.

 
A reportagem de outros jornalistas também contou com uma nova forma de ter acesso às histórias. Pes­soas que antes seriam fontes de in­formação e também leitores passaram a produzir conteúdo a pedido dos jornalistas porque acessar o interior de hospitais era difícil e arriscado. Ve­mos ainda hoje vídeos gravados por médicos falando da rotina de trabalho e do agravamento do quadro de contaminação no país. Vídeo de familiares a respeito das condições de atendimento e das consequências da pró­pria doença ou da explosão de casos nas portas dos hospitais. Muitos são produzidos diretamente para jornalistas utilizarem como fonte e como apu­ração das suas reportagens. Outros, já na esteira da difusão da produção audiovisual, chegam ao público direto do cidadão para os usuários de redes sociais e são comentados depois pelos jornalistas.


E aí entro num novo momento do jornalismo na pandemia. Depois dessa inovação da mediação, da produção de conteúdo e da apuração sem a presença do jornalista, com seu simultâneo aumento e perda de acesso, dependendo do ponto de vista que se olha, em que lugar está o jornalismo um ano após o início da pandemia no Brasil? Essa inovação, o desafio, a frustração, a busca de novo protagonismo e de interesse das pessoas permanece em alta ou voltamos a um lugar morno como estava antes? Não se trata de uma análise mais detida e detalhada do processo e as respostas talvez sejam híbridas. Há avanços que permanecem acontecendo, especialmente uma retomada e um realinhamento da narrativa jornalística e do discurso científico, que nunca esteve em oposição, mas que neste momento aparece ainda mais como aliado, tentando defender quase a mesma noção. A confiabilidade. De que o ponto de vista mais confiável para lidar com a pandemia de Coronavírus e vencê-la é a orientação da ciência. Enquanto a linha mais confiável para conduzir narrativamente e traduzir a linguagem da ciência em relação à pandemia é a narrativa jornalística. As notícias falsas, boatos e soluções milagrosas ou narrativas fantásticas não colaboram nem para o combate ao vírus nem na construção da democracia e na defesa da cidadania. Então, este alinhamento parece claro. As reportagens sobre as vacinas explicam os pormenores de eficácia, enquanto os cientistas são as principais fontes para comprovar a explicação.

 
Na falta de uma condução das informações, dados e avaliações centralizadas pelo governo federal, veículos tradicionais de comunicação se reuniram num consórcio para levantar e divulgar dados diários da pandemia. A colaboração não alcançou a produção, mas chegou ao menos aos dados objetivos sobre o andamento da contaminação.

 
Ao contar histórias, o jornalismo não tem ido adiante. Dados gerais, ações, reações dos governos e instruções sobre os cuidados para evitar o vírus e, no máximo, o acompanhamento das atividades que reabrem ou fecham. Vimos histórias serem contadas nos colapsos que estão ocorrendo em 2021 como a segunda onda em Manaus, o agravamento da situação em Santa Catarina e vários outros lugares. Mesmo assim, elas sempre começam a ser contadas a partir dos celulares das vítimas, das famílias ou dos médicos. Não é incomum, inclusive, que a gente veja os relatos ou indicações de subida de casos primeiro nos nossos grupos de WhatsApp e não nas reportagens. Então o primeiro ano do resto das nossas vidas impactou muito mais nas nossas vidas do que ainda fomos capazes de narrar. O jornalismo não alcançou ainda a dimensão dessa transformação na vida das pessoas e nem traduziu isso na transformação necessária do seu próprio exercício. Talvez pela rigidez da estrutura narrativa e de produção que tinha até agora. Talvez porque a transformação ainda esteja em curso assim como os acontecimentos da própria pandemia.


Chegamos a um ano sem esperar que chegássemos a tanto e também sem saber até quando vamos com isso. E nem como sairemos de tudo isso, pessoalmente e como sociedade. Mas talvez seja importante pensar que sairemos disso contando histórias. E o jornalismo, repensando sua própria forma de narrar, chegando mais perto das pessoas, mexendo nas suas próprias estruturas enrijecidas pela tradição e pelo tempo, quem sabe possa colaborar para essa narração e a compreensão do que estão ainda vivendo. Como já avisou Hannah Arendt sobre a capacidade das narrativas em lidar com os traumas, talvez narrar não deixe de ser alguma forma de cura.

(Texto publicado originalmente por objETHOS.) *É jornalista e pesquisadora associada do objETHOS
*Publicado na edição 45 da Revista Painel Alagoas
Postado por Painel Opinativo

Agronegócio brasileiro alimenta mais de 772 milhões de pessoas no mundo

23.03.2021 às 14:00

 

O agronegócio brasileiro forneceu alimento para 772,600 milhões de pessoas em 2020, segundo estudo da Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas da Embrapa (Sire), divulgado neste mês de março.

 
De acordo com a publicação, 212,235 destas pessoas são do Brasil e as outras 560,365 milhões são de outros países.

 
"A variação da população total alimentada pelo Brasil em 2019, de 809,472 milhões em relação a 2020, deve-se à variação de preços dos produtos nos dois anos considerados. Assim, pode-se afirmar que ao redor de 800 milhões de pessoas são alimentadas pelo Brasil, incluindo a população brasileira”, afirmam os autores.

 
Segundo a pesquisa, nos últimos dez anos, a participação do Brasil no mercado mundial de alimentos saltou de US$ 20,6 bilhões para US$ 100 bilhões. Os produtos em destaque foram a carne, soja, milho, algodão e produtos florestais.


Com isso, a expectativa é de que a contribuição do país para o abastecimento mundial aumente nos próximos anos.

 
Para quantificar a contribuição do Brasil para a alimentação mundial, o estudo considerou a produção de grãos e oleaginosas por serem alimentos básicos de várias populações no mundo e também considerados básicos para a produção de proteína animal. Os pesquisadores realizaram dois cálculos. O primeiro é baseado na produção física de grãos e o segundo agrega a esta produção física o seu respectivo valor monetário, a partir de preços internacionais.

 
Nas contas, os pesquisadores realizaram a conversão de carne bovina em grãos, se baseando no fato de sua produção acontecer no pasto.

 
"Convertemos esta exportação para equivalente em grãos e quantificamos quantas pessoas são alimentadas por esta carne. Esta é a segunda alternativa do estudo”, explica Elisio Contini, um dos pesquisadores envolvidos no estudo.
“Na primeira alternativa, baseada na produção física, utilizaram-se dados do International Grains Council (IGC), subtraindo-se as importações de grãos feitas pelo Brasil", contam os autores.

 
"A partir dos dados de produção, estabeleceu-se o percentual da produção brasileira destes grãos em relação à mundial. Com dados da população mundial, foi possível quantificar o número de pessoas que o Brasil pode alimentar, com base na sua participação na produção mundial de grãos e oleaginosas”, detalham.

 
A partir disso, os pesquisadores entenderam que a participação do Brasil na produção mundial de grãos cresceu de 6% em 2011, para 8% em 2020.
No segundo método, os estudiosos multiplicaram os preços internacionais com a produção a cada ano. Fazendo em seguida a proporção em relação ao total, como na estimativa anterior.

 
Com isso, eles chegaram no dado de 772,600 milhões de pessoas supridas pela produção brasileira em 2020.

*Publicado originalmente como editorial na edição 45 da Revista Painel Alagoas
Postado por Painel Opinativo

Mulher: A chave da recuperação econômica

11.03.2021 às 13:00


Tereza Nelma *

 Nós, da Bancada Feminina Câmara dos Deputados, temos mais uma grande responsabilidade quanto à garantia de equidade no cenário da economia brasileira. A perda de emprego e renda resultou no aumento da pobreza e a sobrecarga de trabalho e tarefas domésticas não remuneradas entre as mulheres. Com a crise causada pelos impactos da pandemia do Covid-19, vamos ter que propor e trabalhar por medidas e ações que possam conter retrocessos nos avanços conquistados na participação e ganhos salariais no mercado de trabalho para as mulheres.

A defesa para que as mulheres conquistassem igualdade de direitos e que o exercício delas fosse assegurado terá que ser maior. Além de já enfrentar a desigualdade na remuneração, da discriminação na concorrência por postos de trabalho, do descrédito da sua competência em relação aos homens, tivemos pioras com a pandemia. Mais mulheres foram obrigadas a ficar em casa, assumir as tarefas domésticas e de cuidados com as famílias. A participação feminina no mercado de trabalho caiu 45,8%, no segundo semestre de 2020. Voltamos ao patamar de 30 anos atrás!

Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da ONU, os mercados de trabalho latino-americanos caracterizam-se pela concentração das mulheres em determinados setores da economia, geralmente aqueles com salários mais baixos e condições de trabalho mais precárias: 56,9% das mulheres na América Latina estão empregadas em setores que registraram maior perda de empregos e queda de renda (comércio, turismo, trabalho doméstico remunerado).

Para mulheres mães de crianças de até três anos de idade a situação é mais difícil. Elas participam menos do mercado de trabalho, segundo a pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A porcentagem de ocupação de mulheres que se identificam como pretas ou pardas com crianças até três anos de idade foi de 49,7% em 2019. Já entre mulheres brancas, foi de 62,6%.

Por outro lado, o cenário para mulheres empreendedoras também impõe suas barreiras à igualdade de condições. Temos 46,2% das empresas tradicionais no Brasil fundadas por mulheres, e apenas 4,7% das startups no Brasil fundadas só por elas. Dessas que decidem empreender no ramo da tecnologia e inovação, somente 0,04% receberam investimentos, fruto ainda do descrédito, discriminação e preconceito.

E, no Brasil, temos milhões de mulheres chefes de famílias, sendo às vezes a única a ter renda em seus lares, o que nos faz acreditar que a autonomia econômica das mulheres será a mola propulsora para uma recuperação na economia, não só brasileira, mas em todo o mundo.

Teremos que lutar por mais incentivo na formação e capacitação das mulheres, traduzindo conhecimento para linguagens mais simples e ampliando a inclusão digital para que mais mulheres possam crescer profissionalmente e também serem empreendedoras em suas áreas de trabalho. Lutaremos para recolocar essas mulheres de volta ao mercado de trabalho com igualdade de condições

Já temos feito um trabalho no Parlamento voltado para votação e aprovação de propostas necessárias para tornar efetivas políticas públicas para as mulheres e continuaremos a colaborar para conseguir maior equidade de gênero. Por exemplo, nos últimos dois anos, a Câmara dos Deputados votou 50 propostas selecionadas pelas deputadas federais, entre elas a Lei 13.902/19, que dá dignidade e apoio ao trabalho das mulheres marisqueiras.

Aprovamos na Câmara o Projeto de Lei 1.444/2020, que além de prever a manutenção de medidas protetivas para mulheres vítimas de violência, determina a inclusão dessas mulheres como beneficiárias de até duas cotas do auxílio emergencial; e o PL 3.932/2020, sobre o afastamento da empregada gestante das atividades de trabalho presencial durante a pandemia do Covid-19, as propostas ainda precisam de aprovação no Senado Federal. Ainda queremos aprovar muitas outras matérias para dar maior autonomia financeira para as mulheres; como o PL 1.943/2019, que dispõe sobre campanha de divulgação de igualdade de direitos trabalhistas entre homens e mulheres, o PL 5.465/2020, que institui a Política Nacional de Formação de Docentes da Educação Básica para as Tecnologias da Informação e Comunicação (PDTIC) e muitas outras. São pautas que contribuem para uma construção cultural permanente por mais incentivo e estímulo, com vistas a ampliar a participação feminina na economia, combater o machismo e a discriminação no mercado de trabalho.

Essas políticas públicas não podem ser consideradas apenas emergenciais, mas que sejam esforços e compromisso permanentes do Estado. Tenho defendido o quanto é importante ter representatividade de mulheres em todos os espaços de poder, para defender essas políticas e ter maior poder de decisão em todos os níveis.

Precisamos valorizar o trabalho das mulheres e sua capacidade de criar novas oportunidades, estimular e incentivar seu conhecimento e ajudá-las a ter mais espaço na economia brasileira. Todas as mulheres podem e têm direito.


* Psicóloga, deputada federal pelo PSDB/AL, coordenadora adjunta da bancada feminina e membro da Comissão da Mulher.




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